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2ª maior produtora de sal tradicional da Europa em Olhão
Em tempos, foi apenas uma salina abandonada, à beira da Ria Formosa, em que nem os seus locatários tinham reparado, entretidos que andavam com outras actividades. Mas hoje, a Necton produz ali 1.000 toneladas de sal tradicional por ano, a segunda maior quantidade da Europa, a seguir às pioneiras salinas de Gerland, França.
A produção começou em 1999 quase por acidente, depois de uma experiência mal sucedida no campo da produção de beta-caroteno com base em micro-algas, protagonizada por um grupo de oito alunos da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto. “Tínhamos investido tudo na produção do beta-caroteno, um pigmento que é usado como corante na indústria alimentar, mas 90 por cento da produção mundial é sintética. Nós tínhamos um produto natural”, conta João Navalho, 42 anos, que em 1995 desceu ao Algarve com sete colegas recém-formados para criar o célebre corante cor-de-laranja usado nas margarinas. A explosão do consumo de produtos naturais e as condições naturais de excepção da Ria Formosa pareciam “conspirar” para que tudo desse certo, para mais tendo os universitários conseguido um acordo com uma empresa norte-americana, uma das três que na altura se dedicavam à produção de beta-carotenos com base em micro-algas. Dois meses depois de assinado o contrato, em 1997, é publicado um estudo que desmentia as qualidades anti-cancerígenas do beta-caroteno “e ainda por cima dizia que podia provocar cancro do pulmão”, prossegue o biólogo, explicando que, logo a seguir, os norte-americanos - que se tinham comprometido a ficar com 50 por cento da produção a custos de mercado - lhes “tiraram o tapete”.
 
“A partir daí, ou fechávamos as portas e voltávamos para o Porto, ou redescobríamos qualquer coisa que nos desse prazer e pusesse à prova os nossos conhecimentos técnicos”, explica, garantindo que até então ninguém reparara na grande extensão de salinas desactivadas em torno do minúsculo “canteiro” onde eram produzidas as micro-algas. Por ali, quatro anos depois dos primeiros sonhos, ninguém queria dar o braço a torcer e a desistência não fazia parte do léxico corrente: “Fomos ter com um antigo salineiro da zona, que na altura era quase indigente, e entusiasmámo-lo a ensinar-nos a fazer sal”.
 
Mas na altura ninguém pensava em sal tradicional. A 50 quilómetros de distância dali, em Castro Marim, começavam as primeiras experiências nessa área, mas eram ainda incipientes e a própria legislação não ajudava, pois obrigava à lavagem do sal. Ora, de acordo com os mentores do sal tradicional, é precisamente a lavagem de sal que transforma um produto rico em oligoelementos fundamentais para o organismo humano - sobretudo o magnésio, muito raro na alimentação corrente mas relativamente abundante no sal - em simples cloreto de sódio. Aliás, só em Agosto de 2007 a saída de uma lei que regula as condições de comercialização do sal tradicional “arrancou” a produção tradicional das malhas da ilegalidade, embora na altura as 13 salinas de Castro Marim já produzissem 500 toneladas por ano. “Para podermos vender em Portugal, tivemos que nos certificar em França, como produto da União Europeia que éramos, porque cá era ilegal”, recorda o gestor.
 
Na Ria Formosa, as primeiras experiências da Necton começaram nos dois hectares mais próximos do terreno alugado e resultaram em 100 toneladas de sal. “Fomos ter com uma empresa industrial que dominava o mercado do sal refinado e ofereciam-nos dois escudos por quilo. Fizemos contas e concluímos que ganhávamos mil euros com o trabalho de um ano. Obviamente recusámos”, afirma o gestor da Necton.
 
A contrariedade não os fez baixar os braços, pelo contrário constituiu um estímulo para a procura de alternativas, acentua João Navalho, que foi a Castro Marim à procura de mais produtores, com quem viria a constituir a Tradisal - Associação de Produtores de Sal Marinho Tradicional do Sotavento Algarvio, em 1999. E descobriu Gerland, na Borgonha francesa, um caso pioneiro de sucesso no domínio da produção tradicional de sal, que hoje já está a ser seguido por produtores do sul da Europa, incluindo a Espanha, recém-chegada a este domínio. Daí à recuperação das velhas salinas ainda desactivadas foi um salto e hoje, menos de uma década após a primeira safra, a área de colheita saltou para os 23 hectares, onze vezes e meia a superfície de 1999, enquanto os oito pioneiros se “transformaram” em 35 trabalhadores. O progressivo interesse do consumidor em produtos não industriais e uma politica comercial agressiva estão a dar frutos: hoje, além das lojas gormet, já é possível encontrar produtos da Necton em cadeias de retalho como o Continente, Makro e Pingo Doce e a Auchan (Jumbo) também já mostrou interesse. Mas 65 por cento das mil toneladas produzidas destinam-se à exportação, para mercados tão diversos como Bélgica, Suíça, Espanha, EUA e Austrália, num total de 150 clientes, muitos dos quais com marcas próprias.
 
“Nesses casos, temos que adaptar a estrutura à dinâmica do cliente e produzir de acordo com o que nos é solicitado”, indica João Navalho, sublinhando que essa adaptação à diversidade dos mercados é um dos segredos do sucesso. De facto, as 800 a 1.000 toneladas de sal e 80 a 100 toneladas de flor de sal - a película salina mais fina por cima dos montes de cristais, ideal para usos culinários como os grelhados - surgem em alguns casos misturados com ervas diversas ou com a indicação “para grelhados de peixe”, por exemplo. No total, são 1,3 milhões de embalagens por ano, com centenas de rótulos e combinações diferentes.
 
O desenho de um rótulo ecológico é o próximo passo da empresa, adianta a engenheira química Victoria del Pino, 29 anos, explicando que se trata de colocar em cada uma das embalagens produzidas o índice de impacto ecológico dessa embalagem. Ainda a desenhar os seus primeiros passos em todo o mundo, a informação do impacto ecológico, ou pegada ecológica, é supervisionada por uma empresa certificadora externa, sublinha. Em 2001 a Necton recebeu o prémio internacional Slow Food, de entre mais de 500 candidaturas, e em 2003 recebeu a distinção “empresa do ano” no sector da aquicultura, atribuída pelo Ministério da Agricultura e Pescas.
 
 
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