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O filme “Floripes”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, sobre a lenda de uma moura encantada que deambulava por Olhão, vai ser exibido pela Lusomundo em nove salas do País, com o objectivo de chegar aos 20 mil espectadores. Reza a lenda que Floripes era uma moura encantada, que deambulava todas as noites por Olhão, causando o medo à comunidade de pescadores, os quais, enfeitiçados por aquela bela mulher, na tentativa de lhe quebrar o encanto, morreriam ao atravessar o mar.
Nascido na Covilhã, em 1978, mas vindo logo depois para Olhão, Miguel Gonçalves Mendes passou a infância e adolescência a ouvir falar desta lenda, que achava “fascinante”, recorda o realizador do filme, em entrevista ao Região Sul.
Por isso, quando Anabela Moutinho, programadora do Faro Capital Nacional da Cultura 2005, o convidou para realizar um filme sobre o Algarve, o realizador, licenciado em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema, não pensou duas vezes.
“Achei que a lenda acabava por ser um bom retrato da relação dos pescadores algarvios com o mar e com o além e a forma como iam construindo a imaginação”, refere Gonçalves Mendes. “É um retrato, aliás, das lendas todas que existem no Algarve. Mais do um produto local, isto é um retrato do Algarve.”
“Floripes” é, sobretudo, acrescenta, “um filme sobre processos de construção da imaginação”. “Como é que as pessoas lidam com as lendas, com os fantasmas? Por que razão têm necessidade de crer, e por que é que acreditam?”, questiona.
A película aborda três grandes temas centrais – a superstição, a religião (“vista também, de alguma forma, como um género pagão”) e o medo, “como causa e consequência tanto da superstição como da religião”.
“Mais do que fazer um retrato sobre as pessoas, procurei antes que elas me ajudassem a construir uma possível versão da lenda”, frisa o realizador. “Existem várias versões – contraditórias entre si – e, no fundo, aquilo que eu faço é criar uma nova versão.”
Miguel Gonçalves Mendes, para construir este “documentário ficcionado”, entrevistou os habitantes e pescadores de Olhão, Culatra e Hangares. É aí que o filme ganha vida, nas histórias de vida e recordações presentes nos depoimentos.
Princípio
Para Faro, Capital Nacional da Cultura 2005, foi-lhe pedida uma curta-metragem em forma de documentário. “A premissa passava por ver até que ponto conseguia jogar com dois registos antagónicos – documentário e ficção – e fazer o filme como um objecto uno, no sentido em que nenhum fosse a recriação de outro”, sustenta.
A decisão final acabou por resultar em “Floripes – Ou a Morte de um Mito”, associado “à memória de uma época e de uma forma de sentir e de estar e também à morte de uma cidade”. “Era um filme sobre transformações e sobre a morte, com um lado sociológico e político muito forte”, sustenta.
Já “Floripes” encontra um registo diferente – no patamar do fantástico: “Como as pessoas, desde sempre, viveram o fantástico, nomeadamente aquele ligado a fantasmas e superstições.”
Na óptica de Miguel Gonçalves Mendes, o filme assenta na disparidade de opiniões. “O humor, a graça do filme está nisso: uns dizem que a moura era loura, outros dizem que era morena, outros que era coitadinha, outros que era bruta”, conta.
“Consegui cumprir na plenitude o objectivo que tinha traçado para este filme. É um objecto híbrido, muito esquisito para o panorama das coisas que se fazem, mas um filme muito acessível, muito leve, com muito humor”, sublinha, lembrando as “reacções positivas” que teve, por exemplo, no último Fantasporto.
Meio
Para rodar esta longa-metragem, o realizador usou matéria-prima local. “Quando, na altura, a Anabela [Moutinho] me fez este convite, pensei que uma forma de contribuir para a minha região era fazer o filme com as pessoas da minha região”, lembra.
“No Algarve, também há bons criadores e bons profissionais, não é só em Lisboa”, assegura. São exemplos o compositor da banda sonora do filme, Paulo Machado, e o artista que fez a banda desenhada para o génerico, Miguel Mendonça.
Quanto aos actores amadores, recrutados em Olhão e sem formação específica, havia outra questão: a pronúncia cerrada e à maneira algarvia. “Pedi a actores amigos meus e ninguém conseguia falar assim”, recorda, entre sorrisos.
Da parte dos habitantes e entrevistados, a “receptividade foi fantástica”: “A minha ideia era a de que o filme fosse construído pela comunidade e para a comunidade – e isso foi o mais bonito, porque as pessoas emprestavam-nos os adereços, as casas para filmarmos e ficavam acordados a ver as filmagens – a maior parte foi feita à noite – até às cinco da manhã.”
Fim
“Floripes” vai ser exibido a nível nacional, a partir de Setembro, pela Lusomundo, em nove salas de todo o País. Além disso, também está prevista a sua passagem por festivais de cinema e salas internacionais.
“Queremos dar dimensão nacional a este filme construído por algarvios, de algarvios e sobre o Algarve”, atira Miguel Gonçalves Mendes. “Desejo que fosse o documentário – chamemos-lhe assim – português mais visto de sempre”, revela o realizador.
“Lisboetas”, de Sérgio Tréfaut, teve 15 mil espectadores numa só sala. “Espero que, estando em nove salas do País, pelo menos 20 mil pessoas vão ver o ‘Floripes’.”
“É preciso que as pessoas divulguem o filme e vão ao cinema. Isto só pode ter sucesso se as pessoas forem ver o filme; se não houver público, não vale a pena. É necessário que as pessoas façam as pazes com o cinema português”, sustenta.
Realizador
Miguel Gonçalves Mendes arrancou a sua carreira, em 2002, com “D. Nieves”, um documentário sobre a Galiza, prosseguindo, dois anos depois, com a longa-metragem documental “Autogra?a”, um retrato do poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, que lhe valeu o prémio de melhor documentário português no Festival DocLisboa 2004, e a longa-metragem “A batalha dos três reis”, rodada em Marrocos.
Neste momento, está já a preparar um documentário sobre “o retrato da relação” entre José Saramago e Pilar del Rio, “União Ibérica”, que deverá em Janeiro de 2008 nas salas de cinema, e vai começar rodar, em Agosto, uma curta-metragem sobre Garcia Lorca.
Quanto ao cinema português, na globalidade, o realizador deseja que as pessoas apostem mais na cultura portuguesa: “O que constrói a memória de um povo é, essencialmente, a cultura e a ciência; dentro de 200 anos, ninguém se vai lembrar de quem era o Eusébio.”
Penetrar no mercado e obter financiamentos é o mais difícil, porque o “tecido empresarial” não ajuda. Gonçalves Mendes, que criou uma produtora, a JumpCut, em 2002, entende que a questão não tem que ver com tamanho: “Este não é um país pequeno – Portugal tem 11 milhões de habitantes, mas a Finlândia e a Irlanda, com metade, têm mercado…”
O realizador deixa alguns recados: “Não temos tempo a perder – é preciso mudar a mentalidade do País e das pessoas. Não podemos passar o tempo a falar mal uns dos outros e do País. Cada um deve seguir o seu caminho e fazer o melhor”, conclui.
fonte: região sul
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