Ualg aposta na medicina regenerativa |
Criar tecidos a partir de células estaminais ou avançar na cura do cancro são objectivos subjacentes ao novo curso de medicina do Algarve, que arranca hoje. Hoje é o primeiro dia do resto da vida dos futuros médicos ‘made in Algarve’. No Campus de Gambelas começam esta terça feira as primeiras aulas, com um dia de atraso face ao ‘programa’ de José da Ponte, mas só porque ontem foi feriado em Faro. José da Ponte, professor catedrático convidado da Universidade do Algarve, é quem dirige o curso de Medicina da UAlg.Entusiasmado com o arranque oficial da licenciatura revolucionária em Portugal – o modelo, que implica o acesso a pessoas já formadas noutras áreas, é conhecido lá fora – José da Ponte recorda ao Observatório do Algarve que este curso tem um enfoque particular que visa marcar a diferença: “Nós optámos por uma estratégia que servisse a todos, e que não implicasse investimentos muito pesados em termos tecnológicos, de equipamento. Decidimos por isso investir numa área específica, em que aproveitamos o saber de algumas instituições e pessoas que trabalham em áreas semelhantes, mas especializando-nos na medicina regenerativa”. A regeneração dos tecidos, pesquisa de células estaminais e a biologia do cancro estão entre as prioridades de investigação dos professores e alunos do novo curso de Medicina, que tem uma forte componente prática. José Belo, professor especializado em células estaminais e desenvolvimento embrionário, coordenará toda a parte científica do curso e encara o futuro sem reservas: “Com a colaboração e a abertura do Ministério da Ciência, temos hoje laboratórios ‘state-of-the-art’ e podemos ficar rapidamente ao nível dos melhores”, diz. O curso conta com um investimento que ronda os 12 milhões de euros em quatro anos, suportados por uma agência – a UMIC, Agência para a Sociedade do Conhecimento – e uma Fundação, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, e também pelo próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. “Uma parte diz respeito ao PIDDAC, no que se trata das obras da ala poente do Edifício da antiga Faculdade de Ciências e Tecnologia, o restante diz respeito a equipamento e software informáticos e a equipamento laboratorial”, explica ao Observatório do Algarve Mariano Gago, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. À margem da assinatura dos protocolos que regem as transferências de verbas, o responsável salientou a importância do novo curso de Medicina do Algarve, não só para a região, como para o país. “Por um lado, há um envolvimento crescente dos cursos com as instituições do Serviço Nacional de Saúde, importante numa região turística como o Algarve, que pode beneficiar da competência científica do curso de Medicina. Por outro lado, o modelo do curso é muito importante porque poderá ser replicado até pelas outras universidades de Medicina”, garante. “É muito provável que se o modelo correr bem – e tudo indica que isso acontecerá – parte da expansão da oferta de medicina em Portugal se faça desta maneira”, acrescenta. Com 15 novos professores, o curso procurará marcar a diferença, não só pelos métodos de selecção dos alunos – que foram sujeitos a variadas entrevistas e teste de aptidão práticos – mas também pelas linhas de investigação, ao nível de órgãos como o coração, pâncreas e fígado, estes últimos bastante vulneráveis à propagação de células degenerativas, fundamentais em doenças como o cancro. “Em Portugal já havia pessoas a trabalhar nesta área, mas faziam-no um aqui, outro acolá, todos isoladamente. Nós procurámos atraí-los precisamente pela motivação do trabalho em equipa”, revela José da Ponte, que desvenda um outro truque para o esperado sucesso. “Nós procuramos fazer com que os especialistas estejam todos em proximidade física. Se um estiver longe, ou se estiver a chover e for preciso deslocarem-se debaixo de chuva, já não comunicam. Às vezes até é no bar ou na pausa para o café que surgem as melhores ideias para a investigação!”, conclui o professor catedrático, que trouxe do King’s College, no Reino Unido, boa parte da experiência e do pragmatismo subjacentes ao novo curso. |
| < Artigo anterior | Artigo seguinte > |
|---|